17 de setembro de 2010

Trilogia: Filha do sangue / Herdeira das sombras / Rainha das trevas

Autor: Anne Bishop
Género: Fantasia
Idioma: Português
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 1276
Preço: € 44,42 (pack)
ISBN: 978-9-78-883977-2 / 978-9-72-883989-5 / 978-9-89637172-2

Avaliação: ***** (muito bom) 

As Jóias Negras é uma trilogia fantástica que tem como cenário um mundo governado por mulheres e pela magia, onde os homens têm um papel secundário e servem como súbditos, sendo criados, consortes, criados e até escravos sexuais.

Os detentores da magia - os Sangue - convivem com os plebeus - pessoas ditas normais, sem poderes mágicos - numa sociedade extremamente hierarquizada e de base matriarcal, assente no poder e no sistema de castas que rege os Sangue. É nestes que reside todo o enfoque da estória, e são os Sangue que, apesar de uma minoria em comparação com os plebeus, governam e protegem - na pessoa da Rainha - o território e seus habitantes. Cada Rainha tem uma corte para as auxiliar e sobre elas recai o dever de protecção, de administrar justiça e de governar o território. Esta divisão gera ódio, abuso de poder e tirania, com algumas Rainhas a exercerem as suas funções de modo menos próprio.

A acção começa com um prólogo, datado de 700 anos atrás no tempo, onde uma poderosa feiticeira prevê a vinda da rainha mais poderosa da história dos Sangue, «o sonho tornado realidade», capaz de unir todos os territórios e acabar com a a corrupção e decadência dos Sangue.

A estória prossegue então com a chegada de Jaenelle Angelline, profetizada como a Rainha prometida. Mas Jaenelle é uma criança, jovem e inocente, sem consciência do que a espera. Quem a controlar e obtiver o seu favor, controlará o mundo, por isso várias facções unem-se e defrontam-se para serem as favorecidas.

Porém, quando a educação de Jaenelle é entregue ao Senhor do Inferno, Saetan, é encetado um enorme jogo de diplomacia e esquemas atrozes para garantir o poder.   

Toda a trilogia é muito interessante e lê-se de uma assentada; há personagens que não mencionei e que são cruciais na acção, como o magnético Daemon Sadi (uma personagem que qualquer elemento do sexo feminino adorará, é mais que garantido), o impetuoso Lucivar Yaslana, a maquiavélica Dorothea ou a letal Surreal. Ao longo dos 3 livros, vamos assistindo ao crescimento e desenvolvimento de Jaenelle Angelline, à forma como é moldada e escapa às manietações dos seus adversários, sempre auxiliada pelos 3 pilares da sua vida: Saetan, Daemon e Lucivar.

Há outras estórias que são contadas e que permite ao leitor perceber todo o universo onde a acção se desenrola. Há vários pormenores deliciosos no que concerne a raças, características e modos de vida dos Sangue, com a magia sempre em destaque. As personagens estão muito bem delineadas e tornam-se familiares à medida que nos vamos embrenhando: fazem-nos vibrar, torcer por eles, preocuparmo-nos com o que virá.

Os livros são impossíveis de largar e é uma pena quando chegamos ao fim. Acho que essa é uma qualidade rara e é dos melhores elogios que um autor pode receber sobre a sua obra.

NOTA: Existe a edição de bolso desta trilogia, com capas idênticas à edição em formato normal, a um preço mais catita (cerca de 11€ cada).

2 de setembro de 2010

O intruso


Autor: H.P. Lovecraft
Género: Terror
Idioma: Português
Páginas: 160
Editora: Fio da Navalha
ISBN: 972-8839-01-41

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Howard Phillips Lovecraft terá escrito: «A mais antiga e forte emoção da humanidade é o medo. E o mais antigo e forte medo é o medo do desconhecido.» Sabia do que falava e melhor o fez.

Escritor altamente influente, foi o pioneiro do horror sobrenatural na literatura, inspirando autores como Stephen King, Alan Moore, Mike Mignola e Richard Matheson.

As suas histórias, fruto de um homem de saúde débil e vítima de constantes pesadelos, são ricas em simbolismo e seres malignos.

Neste livro, temos uma excelente selecção de algumas obras de Lovecraft:

- O modelo de Pickman
- Os ratos nas paredes
- Factos respeitantes ao defunto Arthur Jermyn e sua família
- A sombra sobre Innsmouth
- O intruso
- Dagon
- A cor que caiu do céu

que são exemplificativos do imenso talento de Lovecraft em criar uma atmosfera assustadora e assombrosa, onde as histórias, não raras vezes, são contadas na 1.ª pessoa, e falam de mitos, monstros e seres poderosos que habitam nos cantos mais recônditos do mundo.

Li O Intruso nestas férias de Verão, resguardada do calor abrasador, mas mesmo assim fui envolvida pelo bestiário lovecraftiano, habitado por criaturas que querem dominar, devorar, destruir o universo. Recomendo a leitura deste livro e de toda a obra do autor, que continua a inspirar artistas de todo o mundo, na música, na literatura, nos videojogos, no cinema e nas artes plásticas.

H.P. Lovecraft morreu aos 47 anos mas garantiu a imortalidade através dos seus escritos e reclamou, a título póstumo e merecidamente, o epíteto de 'Mestre do Horror'.
 

*****
(muito bom)

23 de agosto de 2010

The owl killers

Autor: Karen Maitland
Género: Ficção Histórica Medieval
Idioma: Inglês
Editora: Penguin Books
Páginas: 568
Preço: € 7,61
ISBN: 978-0-141-03189-7

Avaliação: **** (bom)

Estamos em Inglaterra, no ano da graça do Senhor 1321, na época denominada de Idade das Trevas.

É um período marcado por um desenvolvimento quase nulo, onde reina a miséria, os jugos clerical e feudal, o totalitarismo e a superstição. A ciência é vista como um absurdo, não havendo espaço para o pensamento intelectual e filosófico; imperam, ao invés, a ignorância, o preconceito e o medo do desconhecido e do que é diferente.

É neste cenário que a autora coloca as personagens de The Owl Killers, mais concretamente na aldeia de Ulewic, o que em inglês medieval significa "o lugar da coruja". Em Ulewic, duas forças debatem-se pelo controlo da populaça: a Igreja cristã e os pagões Owl Masters, homens da terra que se vestem com túnicas e máscaras de coruja e coagem os habitantes a manterem os hábitos antigos de adoração aos deuses.

O povo trabalha a terra para o nobre que detém a posse do latifúndio, paga os seus inúmeros impostos e dízimos, e tenta sustentar-se e à sua família. Não há sistema de saúde, nem subsídios, nem ajudas estatais, a vida é dura, cruel e não se compadece daqueles que têm recaídas ou momentos de azar. Estamos em 1321 e cada um tem lutar arduamente pela sua sobrevivência.

Quando Ulewic e os arredores são atingidos pela peste, a vida fica (ainda) mais difícil. O gado adoece e morre, algumas crianças não resistem à fome e infecções, o padre do lugar não sabe como amparar os paroquianos. Com os estômagos vazios, desmoralizados e cada vez mais indigentes, os populares procuram a origem da sua má sorte e viram-se contra um grupo de beguinas que se instalou recentemente em Ulewic.

As beguinas vivem num mosteiro, um pouco afastadas da aldeia. Dedicam-se à caridade, ao cuidado dos pobres e doentes, mas sem vínculo a votos de clausura como as freiras. Cada beguina tem uma função no beguinário e trabalha para o bem colectivo. As beguinas são autónomas e providenciam a sua subsistência: trabalham a terra (cereais, algodão), vendem o que produzem, conhecem as ervas e os unguentos. Durante anos, foram toleradas e deixadas em paz pela Igreja, mas em 1311, são consideradas hereges e ostracizadas daí em diante.   

Em Ulewic, não encontram inicialmente um ambiente hostil na medida em que ajudam a população com comida e dinheiro, mas rapidamente passam a bode expiatório, acusadas de atraírem a ira divina pelo seu modo de vida independente.

A história é narrada por várias personagens: Servant Martha, a líder das beguinas; o padre da aldeia, Ulfrid; Osmanna, a filha do senhor feudal que é acolhida pelas beguinas quando é expulsa pelo pai; Beatrice, uma beguina abrasiva e revoltada com a sua infertilidade; e ainda uma criança da aldeia, Pisspuddle.

Toda a acção é pontuada por uma envolvente e intrigante mistura de elementos cristãos e pagãos, com muita bruxaria e superstição à mistura. As personagens têm uma voz diferente entre si e são todas muito interessantes, o que facilita a leitura do livro e a compreensão do que se passa, com as diferentes perspectivas a complementarem a história. O livro tem tantos pormenores e sub-enredos que o tornam delicioso que é impossível não o apreciar.

Tudo somado, The Owl Killers é uma leitura viciante e impossível de largar, que recomendo vivamente.